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A conta invertida do faturamento

Por Nitentia · · 3 min de leitura

Toda faixa de faturamento que circula esconde a premissa. Invertendo a conta com a capacidade real de uma cadeira, dá para ver o que ela supõe.

Existe uma faixa que circula: um consultório individual fatura entre R$ 20 mil e R$ 35 mil por mês. Ela aparece em curso, em post de agência e em conversa de corredor, sempre sem a premissa. E como ninguém publica faturamento por consultório odontológico no Brasil, ela não tem fonte — nem a nossa, nem a de quem a repete.

Uma faixa sem premissa não dá para verificar. Mas dá para inverter, e a inversão é útil mesmo quando a faixa não é.

A conta, com toda entrada declarada

Comece pelo que é medido, não pelo que é dito. O consultório típico do país tem uma cadeira e um dentista — 69,2% e 76,9% respectivamente, no CNES de julho de 2026. Então a capacidade não é uma incógnita: é aritmética.

  1. 1 cadeira, 1 dentista.
  2. 20 dias clínicos por mês.
  3. 6 horas de cadeira por dia — não 8, porque parte do dia é retorno de ligação, orçamento, esterilização e a consulta que atrasou.
  4. 60 minutos por atendimento.
  5. Isso dá 120 atendimentos por mês na capacidade máxima.
  6. A 70% de ocupação — que já é uma agenda boa — dá 84.

Agora inverta. Para faturar R$ 20 mil com 84 atendimentos, cada atendimento precisa receber R$ 238. Para chegar a R$ 35 mil, R$ 417.

A faixa não é impossível. Ela só está dizendo, sem dizer, que o recebimento médio por hora clínica é de R$ 238 a R$ 417 — e essa é a frase que dá para discutir com a sua própria tabela na mão.

Nitentia

Por que isso é útil

Porque muda o que você confere. Ninguém consegue auditar "R$ 28 mil por mês". Todo mundo consegue olhar a própria agenda e responder três perguntas: quantas horas clínicas eu realmente ocupo, quanto entra por hora ocupada, e quanto disso é convênio.

E a inversão revela onde está a alavanca. Com uma cadeira e uma pessoa, o teto de atendimentos é rígido: não há como fazer 200 em 20 dias de 6 horas. Então o faturamento só se move por dois caminhos — o recebimento por hora ocupada, ou a ocupação. Uma falta que não é reposta não é um buraco na agenda: é uma hora de teto que foi embora e não volta.

O rótulo honesto desta conta

Isto é um cenário, não uma medição. As entradas — 20 dias, 6 horas, 60 minutos, 70% — são escolhas nossas, declaradas aqui para que você troque as suas e refaça em trinta segundos. A única parte medida é a capacidade instalada, e ela tem fonte no rodapé.

É a diferença entre publicar um número e publicar um método. O número seria mais compartilhável; o método é o que sobrevive ao seu caso ser diferente do nosso.

Refaça com os seus números

  • dias clínicos × horas de cadeira ÷ duração média = capacidade de atendimentos
  • capacidade × ocupação real = atendimentos por mês
  • meta de faturamento ÷ atendimentos = o recebimento por atendimento que a meta exige
  • se esse número for maior que a sua tabela, a meta não é de faturamento: é de preço

Fontes

A faixa discutida aqui e a tabela de preços que a sustenta circulam no mercado brasileiro. O método de inverter a conta serve em qualquer lugar, mas os números não, e por isso a nota existe só em português.